Ecos
Restos digitalizados de desenhos do [viciado].
Eu tive sorte. Minha rotina é simples. Sem complicação, rápida. Acorde, levante, se arrume e vá para a escola. É isso. Antes, cada passo era fácil. Mas depois do [além], tudo ficou difícil. Algumas pessoas (pobres coitadas) começam a ver mais do que deveriam. E por causa disso, precisam aprender a viver com a visão de lá.
O [além] é paralelo ao nosso mundo. E é exatamente o que vem no pensar. Tudo o que não existe no mundo real existe naquele lugar. É só imaginar o pior demônio descrito na bíblia ou o maior psicopata apresentado em notícia. Todos estão lá. Só tem um jeito para aqueles que vêem aquele lugar sobreviverem esse visar.
Manter a rotina. Morrer antes de perder a rotina diária, mas não parar. É essa a regra que o [viciado] (um amigo meu, eu diria) me ensinou antes [Dela] o matar.
Rotina, rotina, rotina.
Tem que repetir cada coisa que você faz todos os dias com as mesmas entrelinhas.
Só assim você não dá atenção para o que existe lá. Só assim você ignora o que tem lá. E se não o fizer, tudo o que [eles] precisam é de um momento de atenção para eliminar aqueles que existem do lado de cá.
Hoje, o noticiário é o único que mostra o [além] (quer eles saibam ou não) e com ele dá pra visualizar lá. Sem isso essa visão de nós, abençoados, pode nos levar à loucura. Ninguém vive vendo e revendo pessoas morrendo e sendo mortas por coisas que não devem existir e não podem ser nossas, verdadeiras e reais.
Precisamos de algo que torne tudo apenas ideias perdidas. E é aí que vêm as notícias. Delas vêm os desconexos e profundos, ruídos insistentes, que ecoam daquele espaço paralelo como vozes malditas e tortuosas, irreais e mortas, eufóricas como cheiro de luto em cemitério.
Até cheiros emanam da televisão ligada para aqueles que vêem o [além]. Mas, pelo menos, todas não podem sair da TV, até onde sabemos. E tudo que vemos há de se ignorar. Tudo mesmo. Antes de abrir uma porta de casa, é preciso aceitar: Não pensar. Não reagir. Nem sequer demonstrar medo. Tem somente um jeito de se acostumar com a visão do mundo lá fora: ver, e ver, mais e mais, até nada mais importar. A vida daqueles que vêem é como andar em terra morta e decrépita a cada passo e suspiro no viver, sussurrando nos seus ouvidos como se o espaço paralelo soubesse viver. É uma irrealidade real. Uma quebra de sonhos tão, tão pertos que se tornam sem ar. Nossos pulmões se afogam no salgado sombrio, manchado e fundo dessa vida liminar. Vivendo de momento em momento com medo de algo nos matar. A imensidão do [além] é insuportável, como comer vivo qualquer futuro que possa ser meu próximo pesar. Uma ressurreição dos mortos em meus olhos. (E tudo isso… há de se ignorar. Mesmo se eu escutar as vozes de velhos corpos chorando pela dor de gritar após morrer. A regra para nós ‘vivos que vêem’ é clara como a luz do sol na meia-noite, pesando na pele por ser impossível de existir se não além: Ignorância aqui é vida. Viver é ignorar). Só faz semanas que tudo começou para mim e ainda assim eu seguro a porta com força antes dela fechar. O primeiro passo é sempre o mesmo: achar um ponto fixo no horizonte e esquecer todo o resto. Foi isso o que o [viciado] me contou. E, no fim, ele morreu. Mas meu coração ainda bate, então não vou parar antes de morrer. Quando você tem sorte, a primeira coisa que você acha não é um [deles], e sim uma coisa normal e real, sem maldade eternal.
Não sei o que [eles] são. Nem sei. Nem quero saber.
E então com um passo para fora de casa comecei o resto do meu viver em rotina. Fechei a porta atrás de mim e andei em direção à escola. A pior coisa são sempre os sons. O [além] é igual a uma furadeira gritando. É o som de metal sendo arrastado no chão, ou o som de carne sendo cortada, dá a pensar que eu entrei em um açougue ao invés de uma rua. São sons sem sentidos saindo sem aviso até o ouvido sangrar. Os sons são GRITANTES. Não param. Doem como se quisessem cortar. Se fosse só eles não seriam nada. Mas aqui em Pernambuco, o além te faz sentir frio, frio infernal, ainda incomparável à gritaria. Mas nem o frio falso do [além], nem os sons horríveis são coisas que me param. Eu continuo andando. Não, o que sempre me para é [Ela]. A mulher que matou o [viciado] anda direita e esquerda com a cabeça dele na mão. [Ela] me lembra uma fusão de uma foice, uma faca, uma santa e uma serpente. Nenhuma palavra no mundo descreve [Ela] direito. Aquilo não é humano. E ver a cabeça do [viciado] me ensinou que sobreviver com o [além] é um inferno. [Ela] para no meio da rua e olha na minha direção. Eu não reajo. Eu não olho. Eu continuo a andar. Passo ao lado dela e sinto o cheiro de sangue velho e podre. A ânsia de vômito sobe. Continue andando. Não pare até chegar. Ou você chega na escola e continua a rotina ou morre. Isso me mantém andando. Eu não paro de andar até chegar na ladeira da escola. Tão perto, mas tão longe. A ladeira está fechada. Nem querendo eu passo pela obra. E agora vem o problema: a rotina quebrou. Não demora um segundo. [Ela] sente a quebra. Eu escuto uma foice/faca bater contra o chão e ecoar. Eu não reajo. A tremedeira no corpo é o frio. Tem que ser. Se não for, [Ela] me mata. Então eu finjo ignorância, me viro de costas para a ladeira e vou para a escadaria ao lado. Na hora que eu viro, ela está lá. É claro que está. Por um mísero segundo, eu paro de surpresa e [Ela] me vê. Eu vejo o que só pode ser a minha morte. E, prontamente, dou um passo forte através [Dela]. Ignore. (Tem sangue na minha pele). Ignore. (Tem alguma máquina na obra escavando). Ignore tudo.
A imagem mais próxima [Dela] que já encontrei. Pensar na imagem ajuda. Mas não é su
fi
ci
en
t̸̵̶̸̶̶̷e̷̵̷̷̷̶̵
Eu arrudiei a rua e subi a escadaria atrás da escola. Não morri. Não ainda. O susto [Dela] me tirou do sério. Tenho que manter a cabeça no lugar. Sem se perder. Ignorar tudo. Inclusive as dúzias de criaturas na escadaria. Resto de assassinatos ou sabe-se lá o que que foi feito. Ignorância é uma bênção. Tem que ignorar. Eu continuei até chegar na escola. Tinha que subir a peste de uma escada e atravessar o portão. A essa hora, o portão sempre está aberto. Antes de passar por ele, eu já me preparo para o que tem depois. A escola tem uma rotina fixa. Forte, mais do que em casa. O [além] afeta ela menos, mas continua igual. É aqui onde eu conheci o [viciado]. Eu não conheci o [viciado] bem. Nunca dei a mínima pra virar "usuário". Pra quê? Morrer cedo? Mas aquele aluno era um dos poucos do bairro no [além]. Só ele me ajudou. O resto só queria saber de se manter vivo. Eu até entendo. Só quando eu chego na sala e me sento que bate a calma. Dentro da sala, as coisas amenizam. O [além] chega aqui, mas chega em silêncio. Era isso o que eu pensava até [Ela] chegar. A obra quebrou a rotina. Ela me viu. E então me seguiu. Agora eu tenho que ignorar até na sala. E foi assim mesmo que o [viciado] morreu. Quase dez horas em um lugar? Sem parar? A atenção cai e você vê o [além] de perto. Agora é minha vez. Eu não vou morrer. Os gritos do [viciado] ainda ecoam. O dia acabou de começar.

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